terça-feira, 5 de abril de 2022

No final da década de 1970, eu almoçava todos os dias com um ou dois amigos no restaurante  do  centro  de  graduação  da  Universidade  de  Cambridge,  onde  estudava. Havia um homem numa cadeira de rodas que algumas vezes se sentava próximo a nós, em geral acompanhado de três ou quatro pessoas. 

Um dia, quando ele estava sentado à mesa diretamente oposta à minha, não pude deixar de observá-lo com mais atenção e fiquei  chocado  com  o  que  vi.  Seu  corpo  parecia  quase  todo  paralisado.  Magro  ao extremo, a cabeça pendendo para frente. Um de seus acompanhantes colocava a comida na sua boca com todo o cuidado, porém uma grande parte dela sempre caía de volta no pratinho  que  outra  pessoa  segurava  embaixo  do  queixo  dele.  De  vez  em  quando,  o homem emitia sons roucos ininteligíveis. Então alguém aproximava o ouvido da sua boca e, de forma incrível, interpretava o que ele estava tentando dizer.

Mais tarde, perguntei ao meu amigo se ele sabia quem era aquele homem. “Claro que sei. É um professor de matemática. As pessoas que o acompanham são seus alunos de graduação. Ele tem uma doença degenerativa que paralisa progressivamente todos os músculos do corpo. Viverá no máximo uns cinco anos. Essa deve ser uma das mais terríveis fatalidades que podem recair sobre um ser humano.” 

Poucas semanas depois, eu estava saindo do prédio enquanto ele estava entrando. No momento em que segurei a porta para que a cadeira de rodas elétrica pudesse passar, nossos olhares se cruzaram. Com surpresa, vi que os olhos dele estavam límpidos. Não mostravam  nenhum  sinal  de  infelicidade.  Percebi  no  ato  que  aquele  homem  havia abandonado a resistência – estava vivendo no estado de rendição.

Anos depois, enquanto comprava um jornal numa banca, fiquei impressionado ao vê- lo na primeira página de uma renomada revista internacional. Ele não só continuava vivo como tinha se tornado o mais célebre físico teórico do mundo, Stephen Hawking. Havia uma bela frase no artigo que confirmava o que eu sentira quando nossos olhos se cruzaram muitos anos antes. Comentando a própria vida, ele disse (agora por meio de um sintetizador de voz): “Quem poderia querer mais?”


Eckhart Tolle 

Um Novo Mundo

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