No final da década de 1970, eu almoçava todos os dias com um ou dois amigos no restaurante do centro de graduação da Universidade de Cambridge, onde estudava. Havia um homem numa cadeira de rodas que algumas vezes se sentava próximo a nós, em geral acompanhado de três ou quatro pessoas.
Um dia, quando ele estava sentado à mesa diretamente oposta à minha, não pude deixar de observá-lo com mais atenção e fiquei chocado com o que vi. Seu corpo parecia quase todo paralisado. Magro ao extremo, a cabeça pendendo para frente. Um de seus acompanhantes colocava a comida na sua boca com todo o cuidado, porém uma grande parte dela sempre caía de volta no pratinho que outra pessoa segurava embaixo do queixo dele. De vez em quando, o homem emitia sons roucos ininteligíveis. Então alguém aproximava o ouvido da sua boca e, de forma incrível, interpretava o que ele estava tentando dizer.
Mais tarde, perguntei ao meu amigo se ele sabia quem era aquele homem. “Claro que sei. É um professor de matemática. As pessoas que o acompanham são seus alunos de graduação. Ele tem uma doença degenerativa que paralisa progressivamente todos os músculos do corpo. Viverá no máximo uns cinco anos. Essa deve ser uma das mais terríveis fatalidades que podem recair sobre um ser humano.”
Poucas semanas depois, eu estava saindo do prédio enquanto ele estava entrando. No momento em que segurei a porta para que a cadeira de rodas elétrica pudesse passar, nossos olhares se cruzaram. Com surpresa, vi que os olhos dele estavam límpidos. Não mostravam nenhum sinal de infelicidade. Percebi no ato que aquele homem havia abandonado a resistência – estava vivendo no estado de rendição.
Anos depois, enquanto comprava um jornal numa banca, fiquei impressionado ao vê- lo na primeira página de uma renomada revista internacional. Ele não só continuava vivo como tinha se tornado o mais célebre físico teórico do mundo, Stephen Hawking. Havia uma bela frase no artigo que confirmava o que eu sentira quando nossos olhos se cruzaram muitos anos antes. Comentando a própria vida, ele disse (agora por meio de um sintetizador de voz): “Quem poderia querer mais?”
Eckhart Tolle
Um Novo Mundo
Nenhum comentário:
Postar um comentário