quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Sensitividade

Ter sensitividade significa estar consciente do que acontece a nós, e não necessariamente do que acontece ao redor de nós. Em geral somos sensíveis ao que estamos expostos normalmente, ao mundo externo. Assim, por exemplo, ouvimos tudo claramente, e, se apenas cai uma colher, a meditação é perturbada. Porém, à medida que a atenção se interioriza, a sensitividade à realidade interior aumenta, e nenhum barulho nos perturba mais. De modo que a sensitividade é boa, mas causará problemas se persistirmos apegados ao mundo externo.

Quando eu comecei a meditar, muitas coisas me perturbavam. Uma colher que caía parecia uma explosão. Eu ficava irritado, me levantava e ia embora. Na Índia isso é comum! Só que, desse modo, se perde a meditação. Então perguntei a Babuji: «O que devo fazer?» E Ele disse: «Ignore isso tudo».

Porém, o problema é que, por um lado ficamos mais sensitivos, e, por outro, devemos ignorar tudo. Como é possível? Quando ficamos mais atentos ao que está dentro de nós.

Tenha interesse! Interesse na vida interna. Eu notei que quando fui capaz de voltar a minha atenção para dentro, a sensitividade se desenvolvia mais rapidamente. E, à medida que a sensitividade aumentava, a atração pela vida interior aumentava.

E descobri o terceiro estágio: sempre que eu estava absorvido interiormente, também ficava mais consciente do que acontecia exteriormente, o que é preciso. Essa é a definição do sahaj samadhi. O notável era que, embora permanecendo sensível ao exterior, eu estava mais sensível ao interior. E então, o que eu ouvisse lá fora não me perturbava mais.

Quando nos aprofundamos cada vez mais na vida interior, essas perturbações, na verdade, nos ajudam a nos aprofundar mais.

Então descobri o que talvez seja o último estágio: de que esses barulhos geram uma espécie de milagre. É quando começamos a olhar o mundo exterior numa espécie de admiração. E o meu Mestre Babuji dizia que esse é o começo da condição divina. Sem curiosidade, sem indulgência, sem a  presença do prazer, mas apenas num senso de admiração, de que tudo evoca a nossa admiração, porque tudo é a Criação de Deus.

De modo que, ao invés de nos perturbarmos, agora olhamos tudo com admiração. É o que se denomina de estado de inocência original, no qual tudo gera admiração. Não há mais perturbação, nem aborrecimento, nem cobiça. Tudo o que vemos é maravilhoso. Dizem que é a condição com que Deus olha, de dentro de você, a Sua própria Criação, e se admira: «Eu criei tantas coisas belas?» O Gita diz que o único sentido que permanece na pessoa que chegou à perfeição espiritual, é o senso de admiração.

Os sistemas de alarme contra fumaça muitas vezes são sensíveis demais, e então são desligados, porque quando as pessoas fumam, esses sistemas desencadeiam o alarme. Contudo, a sensitividade não deve ser desligada. Ao contrário, nós temos que refiná-la sempre, a fim de aperfeiçoá-la. Na viagem espiritual, volte-a para dentro.

Antigamente, a Estrela Polar era importante na navegação para fixar o Norte. Nós necessitamos de um objeto no qual ligamos a nossa sensitividade, a fim de fixar o nosso rumo. E as coisas externas que desviam a nossa atenção momentaneamente, ao invés de nos perturbar, nos ajudarão a corrigir o nosso caminho para chegarmos mais rapidamente à destinação.

É isso.

(Trechos de De Coração a Coração, vol. III)

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